Romance e biografia (com Dick e Auster) | Parte 2

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Continuando o texto postado no começo do mês, esta é a segunda e última parte da adaptação do meu trabalho sobre Paul Auster, Philip K. Dick e autoficção. Nesta, procuro abordar um pouco mais os aspectos ficcionais de cada trabalho e como ele altera não apenas sua percepção para os leitores, e portanto sua recepção, mas também como isso os diferencia para os estudiosos do registro autoficcional.

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Romance e biografia (com Dick e Auster) | Parte 1

Dick & Auster

Há não muito tempo, completei na graduação uma cadeira sobre gêneros literários, cujo trabalho final era desenvolver uma espécie de artigo de algo em torno de oito páginas sobre algum tema qualquer que tangesse o escopo da disciplina. Escolhi por fazer uma breve dissertação sobre os limites entre a autobiografia, o romance autobiográfico, autoficção, memórias, coisas do gênero; sobre esse limite entre o ficcional e o factual. Como “estudos de caso”, abordei dois diferentes livros: um livro de memórias do autor norte americano Paul Auster chamado “A invenção da solidão”, e o romance debativelmente autobiográfico de Philip K. Dick, “VALIS”. Ajeitei e mexi no texto e o adaptei ao Estação, dividido em duas partes. Continuar lendo

As vívidas imagens de Neuromancer

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Em um dia qualquer, se por acaso ligarmos a televisão e a sintonizarmos a um canal fora do ar, veremos um imenso plano azul. Um azul infinito, forte e jovial que, se visto no céu, será o indicativo de um lindo dia ensolarado. Essa é uma daquelas críticas pontuais mais recorrentes a Neuromancer: o defasamento de sua frase de abertura, que hoje se tornou anacrônica. Em 1984, quando William Gibson publicava um dos clássicos da ficção científica, seu equivalente era aquele chuvisco eterno e barulhento que com certeza também já vimos em televisões mais antigas.

Edições recentes como a lida (Aleph, 2008) comumente abrem com um prefácio de Gibson reconhecendo, em uma espécie de mea culpa, a questão com a sua frase de abertura. Não deixa de comentar alguns progressos que em breve mudariam radicalmente a nossa visão do futuro, como a invenção do telefone celular, que falhou em inserir ou sucedeu em omitir em sua obra. Continuar lendo

Ao andar da carruagem…

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Vamos falar um pouco da construção de uma história aqui. De uma de ficção científica. De uma que se passe no futuro. Eu quero falar da questão da ciência.

Atenção: esse artigo é de âmbito bem pessoal. Vou falar aqui de umas experiências minhas escrevendo FC e das minhas dificuldades pessoais, então provavelmente não diz respeito a todo mundo. Provavelmente tem gente que lida com isso melhor que eu.

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Unidades em mundos exóticos

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Disclaimer: o texto abaixo é mais um exercício de pensamento que propriamente um artigo com referências e exemplos. Não tem muito um “ponto onde quero chegar”, é mais uma colocação de perguntas e hipóteses.

Não é incomum – na verdade, muito pelo contrário, é uma das coisas bem comuns – em livros de ficção de viés mais fantástico, depararmo-nos com mundos diferentes, realidades alternativas, outras dimensões: ambientes além do real, muitas vezes com seus próprios seres imaginários ou folclóricos; seu modo de ser e de agir; a lógica, a política, a natureza, a dinâmica de muitas espécies ou civilizações diferentes. É uma das grandes graças de se ler ou de se escrever sobre mundos diferentes, não é? Pensar sobre tudo isso, assistir o desenvolvimento de uma história própria, de grandes acontecimentos que jamais aconteceram e que possivelmente jamais acontecerão em nosso mundo.

Como mundos distintos, eles, de vez em quando (em suas melhores encarnações), possuem suas próprias civilizações e suas próprias culturas, sua própria lógica e suas próprias morais, diferentes das nossas pelo mero fato de terem se desenvolvido separadamente, em seu próprio ambiente, com seus próprios personagens históricos e acontecimentos marcantes; religiões novas, explorações distintas e o que mais o(s) autor(es) pode(m) imaginar e desenvolver.  Continuar lendo

Uma brevíssima história da Ficção Científica

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Vamos falar da história da Ficção Científica e voltar aos problemas das definições. Pra resumir a coisa toda, seria muito mais fácil falar que “a FC nasceu em 1818, com Frankenstein de Mary Shelley, e blá blá blá blá”, mas aí a coisa ficaria chata, né? Então vamos voltar pras definições. Com as minhas pesquisas e leituras e conversas, ouvi duas opiniões sobre a história da FC, e lá vamos nós de novo:

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Sobre o termo “ficção especulativa”

Vikings e aliens? Onde isso se encaixa, afinal?

Parece que existe uma certa dissonância entre o que afinal abrange o termo “ficção especulativa”. É possível ver alguns se referindo ao termo como uma “ficção científica, só que não de verdade” ou como um termo guarda-chuva. Como dito no primeiro post neste blog, adaptado à página de “sobre”, tendo a utilizar o termo nesta última conotação. Ficção especulativa seria, portanto, para mim, o termo que abrange diversos tipos de ficção de cunho mais “sobre realista” como a ficção científica, a fantasia, o paranormal, horror, histórias alternativas, utopias-distopias ou pós-apocalípticos.

Mas esta não é a única definição. Temos um post aqui mais cedo falando sobre a discordância entre o que abrange a ficção científica como conteúdo, e mais uma vez, a não unanimidade nos força a enxergar usos diferentes para a ficção especulativa como termo. Isaac Asimov, por exemplo, que dispensa apresentações, em seu ensaio The Name of Our Field¹, enquanto fala sobre as diversas sugestões para o nome do campo popularmente conhecido como ficção científica (FC, s.f., sci-fi), diz:

I believe it was Robert Heinlein who first suggested that we ought to speak of “speculative fiction” instead; and some, like Harlan Ellison, strongly support that move now. To me, though, “speculative” seems a weak word. It is four syllables long and is not too easy to pronounce quickly. Besides, almost anything can be speculative fiction. A historical romance can be speculative; a true-crime story can be speculative. “Speculative fiction” is not a precise description of our field and I don’t think it will work. In fact, I think “speculative fiction” has been introduced only to get rid of “science” but to keep “s.f.” (p. 27-28)

A hesitação de Asimov em falar de ficção especulativa deriva de qualquer coisa escrita em ficção ser, na verdade, uma especulação, e por isso ser um termo redundante. Apesar de ser tecnicamente uma definição correta, pode ser um pensamento muito literal. O outro contra encontrado é a dificuldade de pronúncia que não deixaria o nome “pegar”, mas esta não é uma das nossas maiores preocupações. Continuar lendo